Ela era como eu. Quando muito pequena o pai pisou em sua patinha a deixando meio manca por alguns dias. Logo depois começou a demonstrar sinais de um defeito congênito na bacia que todos atribuíram a esse acidente. Era extremamente medrosa mas quando provocada reagia com muita bravura.

Por esse defeito, esse andar meio manco que sempre teve, ninguem a quis. A recebemos sem pagar nada por isso e não fosse por esse porém jamais a teríamos incluído em nosso destino.

Existem poucos amores incondicionais predestinados, para nós que vivemos do lado de cá, onde estão as pessoas. O cachorro é um deles. E de forma muito egoísta, como é característico dos homens, sentimos a dor muito maior não só por perder o amigo, melhor do que o homem, mas por perder esse afeto incondicional, tão ofegante e urgente.

O cão nos faz lembrar que certas coisas, muito simples e tão importantes, dão razão a uma vida inteira. Talvez por isso o escolhemos para caminhar conosco por tanto tempo, talvez sabíamos que um dia estaríamos aqui, tão distantes das coisas que são realmente importantes e teríamos nele a memória do que não sabemos mais ser.

Pra quem conheceu a Brisinha e sabe como foi o melhor cachorro do mundo, ela viveu na minha casa, dormiu na minha cama, lambeu minhas lágrimas, nunca precisou ser ensinada meu deus, tão inteligente e tão delicada, por 11 anos de muitas coisas, tantas coisas, meu cachorrinho agora está num gramado de  luz. Vejo muitos pés de abacates, a fruta que ela mais gostava e os anjos jogando gravetos por entre as nuvens pra ela buscar.

Que possamos sempre amar a vida e as pessoas como eles sabem tão bem.

~ por vortiman em Julho 7, 2008.

Uma resposta to “”

  1. Achei isso muito lindo

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