O que há em um nome?
Era 1982, a cidade era vazia ainda, as pessoas andavam mais de ônibus. A terra vermelha tomava conta de muito mais espaços ainda, se misturando aos ainda maiores espaços verdes de vários lugares onde ainda não havia nada. Uma mulher jovem andava pelos corredores do Instituto de Artes da Universidade de Brasília com o corpo coberto de iodo. Assistia as aulas, respondia as chamadas, era uma aluna como outra qualquer e sequer tinha alguma doença cutânea. O amor livre, eco tardio no Brasil ainda por muitos anos pela década de oitenta afora, as roupas, cabelos e liberdades de expressão ou não, no Instituto de Artes em 1982 minha mãe proferiu meu nome pela primeira vez em público num intervalo entre uma aula e outra:
- É uma menina, Carolina. Vai nascer em novembro.
- Carolina? Sério? Tão simplezinho…sério mesmo que você quer Carolina? Ah, sei lá. Lua, Flor, Iara, acho que ficava melhor. Né gente…
E deste dia em diante meu destino começou a ser traçado, das palavras de uma bacharel em Artes Plásticas para o infinito do cosmos. Eu sempre seria perseguida, precedida, pelo meu próprio nome.
E foi assim, a princípio seria Nina, só Nina, mas meu pai achou mais apelido que nome, me chamaram Carolina pra que pudesse ser Nina apenas em apelido. E dos tantos, este nunca existiu. Conversando com minha irmã mês passado descobri que no casamento anterior, quando nasceu sua primeira filha, o nome que ele mais queria era Nina mas a mãe de minha irmã vetou. Parecia apelido. Veja só como a vida é loka.
Lembro de correr pelos corredores da escola puxando pelos cabelos os meninos quando meu nome era Vaca Leiteira, Copo de Leite Azedo, Branca de Neve. Além de ser muito branca, meu nome era Carolina e na terceira série, numa sala de 9 pessoas sempre havia mais uma, quem sabe duas. Já vivi um ano numa sala com quatro Carolinas, talvez duas eram Carolines. Mas todas sempre Carol.
Aliás, no final da década de noventa percebi uma tendência maior para o seguinte questionamento:
- Mas aí, você é CarolinE né?
- Não, não……….não.
E isso foi comum durante muitos anos, como se nunca houvesse existido a outra opção:
- Carolina? Uai Carol, você não é Caroline?
-Ahn?
- Tu tem MÓ cara de Caroline.
-……acho que não.
Nos restaurantes e filas de espera gritavam Caroline, eu não me importava. Mas a era de Aquário veio varrendo a supremacia Carolíngea com E mas sem antes me trazer uma revelação revolucionária.
Como a profecia da bacharel das Artes Plásticas em 1982, Carolina a menina de nome sem graça se deparou com uma Karullyny. Uma replicante do clã Carol. Fazíamos aula de Introdução a Matemática Superior na mesma Universidade de Brasília. Os jovens desainers e os jovens agrônomos. Quando chegava em minhas mãos a folha de chamada, mal se via o nome dela, rodeado de florzinhas, escrotisses do tipo “eu te amo KARULLYNY!”, “vou dar seu nome pra minha primeira filha!”, “me dá seu telefone gatinha”. Eu não me contive, movida pelo karma dum nome sem identidade eu, Carolina a comum, adicionei mais uma florzinha sacana e passei a folha de chamada pra trás com certa pena de quem sabe que um nome pode ser um fardo injusto, mas com o gosto de quem nunca perde a piada.
Sinto um misto de desconforto e graça em saber que metade das pessoas que me conhecem de nome não sabem meu verdadeiro nome. Nunca imaginei que seria meu sobrenome a minha alcunha mais popular em todas suas variantes, minha preferida – Vórtice e Vórtex – às vezes fico triste, sinto falta de ser Carolina.
E hoje não sei por onde anda Karullyny, nem Savana uma colega do segundo grau, nem as Katiuscas e Wanessas que sempre um dia conhecemos. Mas estes dias estava na fila do Giraffas 24 horas, que adorna a já crowdeada comercial vizinha, uma luxúria gastronômica pra todos os gostos e bolsos, enfim, no Giraffas de madrugada o caixa é gay, é ótimo, simpático, muito mais inteligente que metade dos malas da Asa Norte que se teletransportam pra lá as 3 da manhã, eu adoro ele e dia desses olhei seu crachá e vejam só vocês o nome dele é Eros.
Alguns dias depois no caixa do Big Box que tambem adorna com graça a vizinhança, veja bem é o supermercado que só tem nas 400, já que a classe média baixa não compra no Pão de Açucar, eu fui tomada pela intuição de que aquele atendende, naquele caixa era especial. O destino não podia esperar, olhei pro crachá:
SÁTIRO.
Acho que eles, Eros e Sátiro, deviam se conhecer, ia ser um casal ÓTIMOM.

adorei o final
sempre que eu digo meu nome – que é um simples nome – todos perg nadja? nadila? najila? nada?
como é que chama no nome disso?
gosto de apelidos que demostram o carinho que sentem pela gente. sempre quis ter desses apelidos diferentes que todo mundo te conhece assim e acaba que até seus pais se rendem a ele.
acho massa. porque acho que só pessoas com personalidade forte os têm.
quanto aos nomes reais com variaçoes infinitas, tenho um problema serio. clarissa, clarice, larissa, larisse, ligia, lidia, é dificil pra mim, acho que é tudo a mesma coisa. procuro falar bem rapido pra confundir.
Ainda bem que meu nome é Renata e não existem variações como Renate.
texto incrível, CAROLINA.
sabe que a única vez que leram meu nome – ana beatriz – errado, foi quando me chamaram de ana batista.
que irônico.
beijos
Tá…e quantos Ódios tu já viu?
E agora se prepara: o Ódio era colega do Eros.
Ódio e Eros queriam virar Oros e Édio.
Depois de uma semana de internação começamos a chamá-los de Choros e Tédio…
Que? É só um negócio de chamar.
eu me chamo indira
(dà um post de 5paginas)
eu te chamo de vortice
(mas acho que vou te chamar de carolina de vez em quando)
vim no seu blogue hoje porque tava com saudade de voce no gtalk e adorei os textos. beijos