Cronologia. Passado em horas; futuro em minutos; presente nos segundos.

O tempo começa a contar novamente, um dia você sempre soube mais um ano mais velho, ao virar uma página e uma esquina, estaria impresso em cada folha de cada dia no calendário que descreve um novo momento que já se antevia.

No dia de Natal decidi ir ao cinema. Na porta da bilheteria me propuseram o dilema de uma espera de muitas horas. Dirá você que loucura essa escolha, a do cinema no Natal mas, veja bem, é você quem não sabe que estas são as grandes chances. Nos momentos improváveis há de se tentar o impensável. Pois tome nota.

Saindo do trabalho mais cedo, a claridade do mundo real cegava como quando se sai de um filme de três horas e muitas reviravoltas. Respirando o ar fresco da vida ao ar livre, aquela sensação de emergir a vida real, como quando se sai do cinema e os pés voltam a tocar o chão depois de um filme de três horas e muitas realidades paralelas. O vento carregava o cheiro das possibilidades.

Com um vale-ingresso que só serviria até a semana seguinte escolhi o melhor filme que podia, cada vez menos opções. Lembrei do tempo em que ia ao cinema ao meio dia e todos os filmes estariam em sessão. Mas entre tudo isso haveria um dilema de três horas. Pelos corredores percebi que não conseguia mais ficar ali, no impiedoso shopping center por tanto tempo sem um foco concreto, lembrei da época em que isso era possível e muito provável.

Dando voltas olímpicas intermináveis, pegando impulso prum sprint de mais duas horas de espera, tentando achar um motivo pra seguir caminhando sem motivo, viro uma esquina e me vejo “defronte” uma, a única loja de discos. No calor da memória das coisas que um dia eu soube fazer, entrei. A banca de discos em promoção. Folheando as caixas de plástico estavam duas ou três coisas.  Avaliei bem o interesse e percebi, não era enorme, mas reconheci as oportunidades que sempre deixava passar sabendo que as iria encontrar por aquele preço, se não menos, em qualquer outro lugar, inclusive no supermercado. Percebi então os dois anos em que não comprei nenhum disco.  E que em algum dia desses dois anos me dei conta que todos esses discos que deixei de comprar não estavam mais lá, naqueles outros lugares. Vi naquilo uma linha muito tênue que precisa ser agarrada agora, ou nunca mais.

Paguei, peguei a sacola e voltei a caminhar sem rumo. Virei outra esquina e me vi refletida no espelho de uma pilastra central da torre de babel onde o tempo não passa. Eram outras roupas, outro corte de cabelo, mas havia ali naquela sacola de plástico o último mistério no jogo de sete erros da tempo presente. Atrás de mim muitos cruzaram aquele reflexo mas nenhum carregava uma sacola como aquela, com discos.

Ficou claro, nitído, que aquilo que um dia foi, já já, logo logo, nunca mais seria novamente.

Sentada na sala de cinema antes do filme uma série interminável de comerciais e notícias e ali aconteceu. A propaganda do próprio cinema anunciando: aquela sala agora também estaria “disponível para eventos, congressos, confaternizações e palestras, nossa equipe está esperando por você”.

Uma lágrima caiu ali mesmo, quando me vi vivendo uma ficção baseada em fatos reais.  O anacronismo nas consequências irreversíveis da passagem do tempo. Bem vinda terá então de ser, a nostalgia.

~ por vortiman em Fevereiro 27, 2009.

Uma resposta to “”

  1. gente, que sala de cinema é essa?

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