SMS/GLS

•Maio 19, 2008 • 1 Comentário

Domingo, 18/05 – 11:04:53 PM:

“TORPEDO WEB: amor eu vou dormi tá? bjs bjs te amo muuito fica com Deus te amo minha vida amanha tc ta? xau bjos na boka te amo muito favio.. ( leo – 619228 ****)”

Domingo, 18/05 – 12:21:39 PM:

“TORPEDO WEB: leo, tu mandou uma mensagem pra mim que não te conheço. acho melhor mandar de novo senão o gatinho vai ficar bolado até amanhã. (MARIA – 61 11111111)”

Santo Sudário do Amô.

•Maio 17, 2008 • 1 Comentário

Quando o paixão ou o amor acontece ou quem sabe palpita, estranho como não consigo me lembrar de um rosto, o daquela, a pessoa. Se me fizessem um teste, desses psiquiátricos e me colocassem eletrodos na testa, eu me concentraria dentro de uma sala cinza vazia, sem nenhuma distração. Fecharia os olhos e acessaria furiosamtnte a memória mas, veja só, não veria nada. Me daria conta então e colocaria a mão no peito, sentiria um calor imenso e os eletrodos arrancaria da testa. E se me rasgassem ali, ali cortassem minha pele, afastassem meus ossos e abrissem meu corpo veriam a imagem marcada a fogo, do teu rosto.

Berenice segura, nós vamos bater.

•Maio 14, 2008 • Deixe um comentário

Eu não me canso. É incrível.

Bebendo sangue e ardendo em febre.

•Maio 14, 2008 • 2 Comentários

Que Alzheimer não me pegue pelos cabelos e me roube dessa cornucópia de absurdos.

Pois bem, mais um emprego, mais uma repartição. Uma grande empresa, coisas imbecis, flyer digital pra avisar da missa evangélica de comemoração de muitos anos de alguma coisa. Imprime 14 cartazes, corta menina, corre que tem de botar hoje na parede que a missa é amanhã de manhã. A humildade é uma qualidade que deve ser preservada a qualquer custo veja bem: atenção menina, achando que sabe manejar um estilete, essa arma branca disfarçada de “office supply”. Os filetes de papel voando como se num filme de artes marciais desse golpes certeiros no papel. One inch punches, Bruce Lee na mesa de corte, anos de experiência na arte de refilar. Levantando a Excalibur do escritório mais uma vez com a rapidez e destreza dos imbecis, atenção menina a régua é de plástico e não segura a onda.

A lâmina entra na pele, como um “paper cut” nem dói, só dá gastura. Bota o dedo na boca menina, chupa o sangue pra estancar, mas nesse movimento duas gotas grossas caem sobre as nuvens da imagem picareta de um céu iluminado e angelical, banco de imagens gratuito. Nem precisa pensar muito mas todo mundo achou lindo. A picaretagem é uma hab ilidade que deve ser exercida sempre que possível. As gotas como um presságio da lição divina se espalham pela palavra Missa, Deus é escroto.

O sangue na boca vai descendo em goladas, tentando falar e avisar que vou embora mais cedo o sangue começa a escorrer pela boca afora. Gritos, desesperos, só tem mulher nos lugares onde eu trabalho. Sempre. Que isso gente, só foi um corte, não tá doendo só tá sangrando, deixa que eu vou pro hospital andando mesmo, calma. Tira o dedo da boca menina, enrola num papel que a boca é o orifício mais sujo do corpo. A pressão baixa. O corte era tal uma fonte barroca jorrando sangue pelo braço até o chão. Quando você chega na emergência de um hospital público com um corte ou qualquer coisa que envolva sangue a primeira coisa que o médico lhe pergunta quando lhe vê é – como isso aconteceu? ah é? estilete? como assim? onde você trabalha? mas como você se cortou? Num tom de dúvida, incredulidade, tentando ter certeza de que não foi briga de faca nem resultado de um crime qualquer. Depois de mostrado o crachá e contada a história ele bota as luvas de plástico e estica o corte até você gritar de dor, pra ver se foi fundo e se precisa limpar. A enfermeira no hospital público usa um óculos de grau com a armação rosa e o monograma da Louis Vuitton cravejado em Swarowski. Teve nojo e medo, não quis suturar, o médico parecia um figurante da Malhação que resolveu virar médico porque assim foram todos antes dele. Dois pontos, nada de mais, só pro corte não ficar abrindo quando você mexer o dedo. E esse sangue todo hein doutor? Normal, cuidado menina com esses estiletes. Um olhar rasgado, ainda em dúvida, quê isso doutor, quê isso.

Uma semana depois, tirando os pontos, vou resolver uns pobrema. Andando pelas 700 da Asa Sul – esse lugar de gente de posses e cachorros bem cuidados – um cocker spaniel com lacinho na orelha, coleira de pulga, come o lixo na calçada ao meu lado. Quando se preparava pra engolir um saco plástico inteiro me lembro do mesmo incidente com meu cachorro e como isso é perigoso para um animal, estendo o braço na direção do bicho – Ei psiu, faz isso não, vai te fazer mal… AAAH… enfia os caninos na ponta do meu dedinho direito, CARALHA. Ninguém aparece pra dar ciência do cachorro, várias pessoas na porta de suas casas e ele não parece ser de ninguém, continua enlouquecido comendo o lixo no chão. Espero mais um pouco ninguém aparece, eu segurando a mão latejando de dor. Um pingo de sangue escorre do lugar onde os dentes minutos antes se cravaram. Chego em casa, o dedo já não doía mais porém um mal estar sutil toma conta de mim. No Google me explicam que não existe cura pra raiva, assim como o tétano é caixão. Merda, vamos lá, uma vacina não custa nada. De graça até injeção na testa.

Pois bem, o tratamento para raiva envolve seis injeções na primeira leva, uma delas – cheia de anti-alérgicos para prevenir as reações adversas ao soro anti-rábico – é a injeção mais dolorida que já tive notícia. O soro anti-rábico pode dar febre, muita. Eu ardi por três dias e três noites, 40 graus fervendo o mercúrio do termômetro, jurando que estava com dengue. Mal estar, febre, pressão baixa. Até que uma enfermeira vários dias depois me avisou que não podia ter feito nenhum esforço, levantado peso nem caminhado muito, nem ingerido alcóol pois com “vacina de raiva faz passar mal e pedir pra morrer”. Mais seis doses de vacinas, uma injeção só de cada vez, se seguem, a última vai ser dia 16.

Eu acredito mais na vida que nos livros e nos filmes. Que venha a próxima história. E cuidado com os cachorros e gatos sem procedência. O amor aos animais não compensa.

I’m with the band.

•Maio 14, 2008 • Deixe um comentário

shows e eventos afins em breve. a quem interessar possa.

•Abril 12, 2008 • 2 Comentários

Meu celular está um dia adiantado no calendário do display que é ajustado automaticamente pela provedora de celular. Todo dia eu acho que é amanhã.

A interface de edição deste blog está alterada, algum spyware ou algo do tipo, que só está afetando o meu login neste blog.

Algumas mensagens estranhas apareceram há um tempo atrás na minha tela.

Um completo desconhecido me adicionou no messenger.

Eu quero viver uma vida mais analógica mas somos todos reféns.

Silver and Gold

•Abril 2, 2008 • 2 Comentários

Aprendi a seguinte lição em uma mesa de bar, comprando um pingente de prata. Passo a frente, perpetuar a tradição oral. Esqueçam a bijuteria e o ouro michelline. A pulseiras de plástico e bakelite. Os badulaques banhados em prata, banhados em ouro. Carregue um metal nobre perto do corpo, carregue mais nobreza sobre sua pele, sempre e acima de qualquer outro adorno.

Ourivesaria e felicidade:

Pegue um pingente de prata. Pode ser algo bonito, pode ser uma herança de família.

Pendure-o no seu melhor cordão.

Feche-o bem fechado ao redor do pescoço. Às mulheres, cuidado para não prenderem os cabelos no fecho.

Deixe-o pender bem próximo ao coração.

Use-o. Uma. Duas. Três vezes. Em um dia bom, em dias ruins.
Guarde-o numa caixa de veludo, no fundo do armário, numa caixa de madeira em cima da penteadeira, embaixo do travesseiro, no bolso pequeno e escondido da bolsa.

Um dia ou em qualquer momento depois, observe-o bem.

A oxidação da prata é um sinal de eliminação de ácido úrico em excesso através dos poros da pele. O ácido úrico é produzido na digestão de alimentos de todo tipo. É produto do consumo de álcool e indisposições gerais. Se deposita nas articulações em cristais.

Reage a prata e causa oxidação rápida e acentuada. O cobre tem a mesma propriedade, há muitos anos atrás, geriatras recomendavam aos mais velhos que usassem pulseiras de cobre e ficassem atentos a oxidação decorrente do uso, prevenindo artrite e outras doenças articulatórias.

Não achei um bom vídeo do Neil Young, assistam acima então a Horace Silver, precursor do Hard Bop.

Tombos e cicatrizes.

•Março 24, 2008 • 4 Comentários

 

É interessante perceber como tantas coisas se repetem.

Uma página dobrada discretamente no canto superior de um livro. Muitos anos depois você folheia esse livro e lá estão elas, de tantas em tantas páginas as marcas dessas orelhas, algumas enormes emocionadas pelo fio da narrativa antes de serem violadas por mãos ansiosas, outras muito sutis como se não quisessem realmente marcar aquele momento, torcendo para que de alguma forma esta dobra se desfizesse sozinha e aquele livro nunca precisasse ser aberto novamente. Um hábito que meu pai como ex-dono de livraria sempre condenava e eu insistia em fazer.

Acordo pontualmente ás onze horas. Durante todo esse ano, não importa a hora que vá dormir, acordo pontualmente ás 11 horas. Alguns anos atrás, no ano da história que vou contar daqui a pouco, acordava pontualmente ás 9 horas da manhã. Não é cotidiano, mas acontece, todo o dia por alguns meses, de tempos em tempos. Até que alguma coisa perturbe essa pontualidade e me faça enxergar outras coincidências.

Repetindo um tema, o dos tombos e cicatrizes, outros momentos que se cruzam na temática das coisas que se repetem, vem a cabeça.

Há muitos mais anos atrás, fui ao meu primeiro show de rock. Tanto tempo faz que me lembro em flashs e às vezes não sei se são memórias reais ou impressões que se tornaram imagens. O primeiro show de qualquer tipo foi a Feira de Música no Teatro de Arena do Parque da Cidade, hoje enterrado embaixo do Centro de Convenções. Desse momento lembro apenas do vendedor de uma marionete, um macaquinho de pelúcia que vinha com um apito que você colocava na boca e fazia o som mais próximo possível de um macaco. Vocês se lembram? Vendia na Torre, vendia muito.

Tinha uns quatro anos talvez um ano mais. Fui ao Gran Circo Lar ver a Plebe Rude,vocês se lembram? Esse blog é um apanhado de lembranças, peço a vocês então, que também lembrem um pouco.

Senti ser muito tarde, muito mais tarde do que jamais me permitiram. Lembro de ver a fila enorme de cima, nos braços do meu pai, as luzes, as pessoas barulhentas. Lembro que não entendi porque entramos por um lugar distante de onde estavam todas as pessoas, fiquei um pouco assustada. Lembro de nos levarem ao lado direito do palco, mais uma vez um lado direito de um palco, lembro de sentar em cima de uma caixa preta no colo de minha mãe. Lembro de ver a banda entrando, e finalmente entender porque estávamos ali. Lembro do barulho e sei que dormi muito apesar do barulho. Lembro de entrar num camarim muito pequeno, as roupas, o cabelo, parte de alguma coisa muito especial. Se comportavam como pertencendo a alguma coisa. Mas uma lembrança é muito viva, não sei porque, lembro muito bem dos anéis de caveira nos dedos de alguém, tenho quase certeza que era o Phillipe. Lembrei de ter visto aqueles anéis na Torre de TV. Vendia muito.

Essa lembrança me conduz a outra, que vai bombar esse blog mermão. Lendo uma biografia cujos cantos marquei ontem, me lembrei. Alguns anos depois do Gran Circo Lar fui ao Rio como ia todos os anos, Natal, Carnaval. Fomos ver a banda ensaiar. Eu tinha agora os discos, tinha reconhecido-os na televisão. Etc.

Era um bairro pacato, era em Botafogo. Entramos numa porta preta sem nenhuma indicação de nada, muito estreita num muro branco de uma rua qualquer, abriu-se à porta, vários instrumentos, equipamentos diversos e alguns microfones ao lado de uma sala com sofás de couro e uma mesa. O que exatamente acontece nesse lugar? Percebi pelo vidro da sala com sofás de couro uma figura muito gorda, vestida com uma camisa branca. Uma voz muito alta e muito familiar. Entramos rápido por uma porta mais preta e estreita. Sentei num banco alto e assisti a banda tocar achando geniais as paredes com espuma, pensei se não poderia colocar no meu quarto, quicar nas paredes.

Saímos da sala de ensaios e a figura meus deus, ainda estava lá. Esparramado no sofá, abraçando duas meninas, muitas risadinhas. O cabelo muito engraçado, certeza que já tinha ouvido aquela voz em algum lugar… Puxei a manga de mamãe – Quem é aquele gordão ali? Tim Maia bicho. Lembro de um cheiro que consegui associar a palavra maconha nas piadas da banda ao notar o ilustre. Muitos anos depois o mesmo cheiro exalando do meu primeiro beck me fez lembrar um pouco este dia. Que Deus o tenha.

Anos mais tarde, aos dezesseis ou dezessete, na segunda edição do Porão do Rock, ainda na Concha Acústica, a banda ia voltar. Apoteótico! Histórico! Minha primeira incursão sozinha num backstage, novamente sentar na caixa preta do lado direito do palco e reviver 10 anos antes. No dia anterior vou ao festival ver as bandas locais. Aquela porra daquela concha acústica nunca teve muita iluminação.

Completamente sóbria, nem sombra de maconha ou álcool resolvo andar em cima das arquibancadas de cimento, olho pra trás pra ver se elas, as amigas, estavam me seguindo por aquele caminho que escolhi pra fugir da multidão. Viro pra trás, foi Deus, foi uma jaca madura, foi um passo em falso, foi a vida, essa coisa louca.

Senti minha cabeça batendo contra o concreto, apaguei. Pela segunda vez na minha vida senti a sensação de quase morte do desmaio. Uma coisa meio lenta e muito escura. Segundos depois abro os olhos, as cabeças todas sobre mim – Tá tudo bem? Tá tudo bem? Naquela época ainda me chamavam pelo meu primeiro nome.

Levanto sem sentir nenhuma dor, só uma latejação ensurdecedora na cabeça. Sinto alguma coisa molhada nas costas e no ouvido. Penso ter caído numa poça de cerveja ou água. Boto a mão no pescoço sinto uma coisa muito molhada. O foco dos olhos foi voltando, fui trazendo a mão pra perto.

Era sangue, muito sangue. Vermelho forte, grosso. Sangue de menstruação nunca parece sangue de verdade, sempre achei que depois da menarca nunca mais ia me assustar com meu próprio sangue. Meu deus que medo. Pânico. Foram me levando pelo meio da multidão, eu não conseguia parar de tremer, o sangue escorrendo pelas costas eu não conseguia colocar a mão em cima pra estancar, não sabia de onde vinha aquele sangue nem queria descobrir. Fomos atravessando a multidão até as barracas de comida, perguntando pra todas as pessoas onde ficava a Cruz Vermelha.

Na barraca da Cruz Vermelha ou o que quer que seja, são vários os corpos espalhados pelo chão, o cheiro de vômito muito forte. Quando entro coberta em sangue vejo o brilho nos olhos dos enfermeiros e enfermeiras – Sangue e vísceras, finalmente.

Começo a abrir um sorriso pelo frenesi dos enfermeiros em me atender. Já tinha entendido que não ia morrer, já tinha entendido que o lance era consertar essa merda. Mais um vacilo, mais uma cicatriz e uma história.

Me puxam pro centro da tenda, a atração principal toda ensangüentada, tiram meu casaco e tomo uma chuverada de cinco, seis sacos de soro fisiológico, todos competindo procurando a origem do sangue, me fazem perguntas, cinco, seis pessoas ao mesmo tempo, eu respondo que não foi nada, será que meu casaco preferido vai manchar? Me senti responsável por faze-los se sentirem mais calmos. Tinha muito cabelo naqueles tempos, escavando as melenas encontram o rasgo. – AAHHGHH! um deles não se contém e vomita um som de nojo e choque. É. O rasgo foi bruto então. Eu rio. Pareciam todos muito nervosos mesmo, VOLUNTÁRIO escrito no jaleco.

A cabeça enfaixada, pesada e fofa de tanta gaze, o rasgo foi muito sério segundo um VOLUNTÁRIO. Entro numa van de adolescentes em agonia. Sádico, surreal. Sento do lado da menina com tala, a perna quebrada, segura minha mão muito forte e grita mordendo as falanges a cada movimento brusco. Na frente os acompanhantes. Uma amiga foi as outras ficaram. Do lado dela um rapaz acompanhando a menina da perna quebrada. Ela apertava minha mão, eu sentia naquele aperto que apesar de todo apelo visual do meu sangue nunca tinha sentido aquele tipo de dor. Perguntei se tava tudo bem se queria que falasse com o médico, ela disse que não, só precisava agüentar .Que aconteceu contigo? – Uns goiaaaanooooss, não sei de onde surgiram, me pegaram me jogaram pro aaaaltoooo, todos bêbados filhos da puta, me jogaram pro alto mas não me seguraram de voltaaaa!

Meu deus… Cogitei nunca mais ir a um show de rock e de repente vem lá de longe, da geral, quase uma platéia do freak show de adolescentes estrupiados, os amigos das vítimas:

- Carol, esse é o _______, ele lembra de você.


Eu me viro com a cabeça do tamanho de um orelhão, tombo um pouco pro lado com o peso das ataduras: – Jura? Acho que não te conheço não, mas beleza, tudo bem? Dou um joinha, como eu sou simpática mesmo diante das adversidades.

- Pois é… ele lembra de você CAINDO DO PALCO no Garagem uns dois anos atrás.

Essa história fica por aqui. O punch line fala mais alto, mas as coincidências merecem um rodapé.

Não vi o show de volta da banda no dia seguinte. Assisti pela televisão muito puta, muito loser, muito convalescente, a vida é assim mesmo em algum momento a gente recebe em dobro.

Sentada assistindo a transmissão super estática de uma câmera frontal, começam a tocar “A Ida”. Apoteose. Vem uma onda muito forte de nostalgia e a lembrança de que aquela foi minha música preferida durante alguns anos contemporâneos ao ensaio e ao Tim Maia. Lembro que na mesma época mais ou menos meu bisavô morreu. Convivemos durante poucos anos, mas senti que ele seria extremamente importante pra mim. Lembro que pensei nessa música, sabia que era sobre morte. Lembro que nunca me deixaram ir a o enterro dele, nem a nenhum outro enterro. O primeiro foi ano passado. A mãe de uma amiga morreu de câncer.

É interessante perceber como tantas coisas se repetem. As mesmas coisas, diferentes a cada vez.

A barca vai passando, sai da frente pessoal.

•Março 13, 2008 • 2 Comentários

Então, a vida é feita de cicatrizes e articulações comprometidas pelo tempo. Tenho um tornozelo meio bichado que sei, vai me trazer essa lembrança que vou relatar aqui, pro resto da vida.

Há mais de dez anos atrás, aos 14 anos para ser mais exata, fui ao Teatro Garagem bater cabeça. Você se lembra? Foi meu primeiro show adolescente noturno, parece tardio, mas era uma menina sem irmãos mais velhos e nessa época a maior parte dos meus amigos não morava no Plano Piloto e o transporte público sempre foi uma merda.

Os amigos que moravam mais perto eram os meninos do skate. Os moleques da rua. Todos mais novos que eu. Um belo dia de sábado, voltando do Setor Bancário insistiram para que eu fosse ao Garagem num festival de hardcore da Rádio Cultura, mais especificamente do Cult 22. Vocês se lembram? Eu ainda ouço, devo minha educação musical em grande parte a eles, as fitas cassetes e o botão vermelho de record.

Eu morava a 50 metros do SESC na época, ir e voltar não seria problema, mas não tinha grana. Consegui juntar as moedas da família inteira e tirar os três reais da meia entrada na época. Não sabia como avisar minha mãe sobre essa empreitada. Mamãe que ainda me achava um pouco nova e tinha certo receio por ser uma garota, de ir a shows de rock com garotos arruaceiros do skate. Enfim, deixei um recado super elaborado em inglês, defendendo minha liberdade e maturidade – pro meu pai omisso não entender – para quando ela chegasse do trabalho, me vesti da forma apropriada para a época e me dirigi ao lendário Teatro Garagem.

Encontrei os garotos já imersos no pogo e me enfiei no meio para viver a adolescência em todo seu ápice. A vida é feita de olhos roxos e cotoveladas. Numa ida ou vinda da roda pueril senti uma mão surgindo de algum ponto atrás de mim e apertando meio seio pubescente.

A quem eu queria enganar? Em 1997 as coisas eram mais brutais. Não consegui achar o covarde pra mostrar pro meus escudeiros do skate e botar neguinho pra pancar o vacilão.

Decidi, completamente violada na minha pouca honra feminista tão em voga na época, abandonar a Sodoma e Gomorra do pit e subi a arquibancada até o vão aberto que tinha no topo em frente ao palco, vocês se lembram? Onde hoje é a cabine de som e luz do mesmo teatro. Sentei na beira deste vão com os pés sobre as últimas cadeiras da arquibancada. O tempo pareceu parar por um momento, já não ouvia mais a música incompreensível de alguma banda daquelas que se vocês se lembram sabem quais poderiam ser. Se não me engano era o DFC. Ou o BSB-H. Sentei e por um tempo que pareceu imenso só observei aquele universo que naquele momento me pareceu tão surpreendente e hoje em dia é uma memória de tempos áureos de uma adolescência que não se vive mais em Brasília.

Do meu lado, dentro do vão, na parte mais alta daquele moquifo, um segurança monstruoso segurava uma lanterna muito grande na altura dos olhos, vasculhando com o facho de luz as rodas e grupos. Tentando discernir entre um cigarro e um beck. De tempos em tempos descia e reprimia alguma atitude mais extremada com ligeira violência. Ninguém se lembra desse segurança com a lanterna, eu estava lá, nunca vou me esquecer. Vi de cima o pogo febril, as meninas na roda de fora se debatendo entre elas sem coragem de se enfiar naquela maçaroca de cotovelos e cabeças. Vi os muito bêbados vomitando na porta do banheiro mais podre que qualquer SESC já viu. Vi os skatistas, os metaleiros, os hardcore-pirulito, os straight-edges, os malas do Guará, as meninas do ska.

De repente minha contemplação é quebrada por gotas de suor voando na minha cara, eram o Sardinha e o Felipinho, sem camisa gritando – Carooool, tu viu o mosh que eu dei? Foi pra tu velho, foi pra vocêeee. Eu agradeci, dei um aperto de mão de skatista ou qualquer coisa do tipo e pensei comigo será que já vou ter de passar por esse rito de passagem da adolescência, tipo AGORA? Não me sentia preparada, ainda estava meio atordoada pela minha observação sócio-antropológica do que um dia foi o Teatro Garagem.

- Velho, tu tem que pulaaaar! Vai lá Caroool, vai ter de pagar um mosh pra gente agoooraaaa! Eu me esquivava de forma descolada. Quê isso cara, sou mulher nego já pegou no meu peito não tou afim de mais ABUSO SEXUAL DE MENORES.

- Qualéee Carooool, quer ver? Vou subir lá e vou dar um mosh 360-FIFTY-GRIND-NO-HANDS em sua homenagem.

Lá vai o Sardinha, hiperativo descontrol, sobe no palco grita o meu nome e se joga numa pirueta elaborada nos braços de 6 moleques muito magrelos. Eu vejo o destino se aproximando e sussurrando no meu ouvido: – Você vai ter que pular. Você vai ter que passar por isso, que histórias você vai ter pra contar daqui a 10 anos se não pagar um mosh no Teatro Garagem antes dos 18?

Eu vou, sem fazer a menor idéia de como se processa um mosh. Eu entro na meio que fila,meio que tumulto do salto-sem-vara-de-palco. Observo alguns meninos com a metade do meu tamanho subindo no retorno e dando um impulso inacreditável. Olho para o outro lado vejo Hector, o homem-palco, servindo de catapulta para as meninas e os menos corajosos. Sinalizo pros meninos que prefiro pular dele, eles me sinalizam com repreensão. O Hector é pras crianças, PULA DO PALCO CARALHO!

Merda. Tomo coragem ao ver uma menina, que por muito tempo pensei ser um menino se jogando de costas e evitando o ataque frontal. Pensei comigo, é isso então. Deixe que me peguem a bunda. A vida às vezes te leva a essas encruzilhadas improváveis.

Me vi então frente a frente com o lado direito do palco que não tinha mais do que 15 centímetros. Subi nem sei como, me virei para o grupo de meninos esquálidos e portanto todos suas mochilas jeans com NIRVANA escrito em caneta bic. Todos muito mais fracos e menores que eu. Vejo meus amigos acenando completamente eufóricos de cima da arquibancada. Olho pros braços formando a maca que me receberia, vejo alguns sorrindo esperando pela oportunidade de me apalpar. Tento subir no retorno, o topo da caixa é muito estreito. Boto o pé direito, depois o esquerdo. Dou um impulso tentando girar pra cair de costas. O retorno tomba pra frente, eu caio com todo o peso do corpo, da vergonha e do arrependimento sobre meu tornozelo esquerdo.

Fudeu. Fudeeeeeu. Levanto sentindo uma dor nauseante. É fratura exposta, tenho certeza, me fudi no limits, grindcore, death metal. Não conseguia apoiar nem encostar o pé no chão. Não conseguia olhar pra frente, que vergonha, que dor. Pra que tudo isso meu deus?

Me arrastando sento em uma cadeira qualquer, alguns vem me perguntar se estava tudo bem, depois de checar e ver que nenhum osso tinha atravessado minha pele digo que está tudo bem, como não, não foi nada seus FILHOS DA PUTAAAAAA.

Meus amigos aparecem, na melhor tradição masculina me perguntam se estou bem e começam a rir descontroladamente. Eu, enlouquecida de dor, mando todos a merda. Eles tentam me ajudar eu digo que está tudo bem, só preciso ficar um pouco sentada. Mentira precisava era de tempo pra pensar em que hitória ia contar quando chegar em casa com o tornozelo do tamanho da minha cabeça.

Depois de conseguir desenvolver uma forma de caminhar sem provocar uma dor fulminante procuro os pequenos fomentadores da tragédia e digo que vou embora, eles perguntam se preciso que alguém me acompanhe digo que não, tudo certo. Tinha de mostrar alguma macheza pra que voltassem a me respeitar no dia seguinte. A única menina do grupo. Fui me arrastando, cega de dor até o lado de fora. Quem estava lá me esperando do lado de um moleque em coma alcoólico sendo assistido por uma ambulância?

Minha mãe.

Fudeu.

Verdade seja dita, nunca foi mimada ou super protegida, na realidade muito pelo contrário, mas para algumas coisas minha mãe, que no seu tempo foi algumas vezes ao Teatro Garagem, ainda preferia que eu fosse acompanhada de amigos por quem ela depositasse mais confiança e ao menos conhecesse de vista, se possível uma outra menina entre tantos garotos. Enfim, não houve puxão de orelha nem tapa, mas como lição minha mãe não me levou ao hospital. Tentei fingir que não doía muito para que ela não viesse com um eu te disse, mas era óbvio que eu tinha feito uma merda colossal com o tornozelo que ela pariu e protegeu até aquele momento de um trauma irreversível.

Passei uma noite em claro me contorcendo de dor em silêncio. No dia seguinte meu tornozelo estava do tamanho da minha estupidez adolescente. Fui ao hospital. Tirei o gesso antes do tempo. Meu tornozelo nunca foi o mesmo. Ainda dói quando uso salto alto. Porem, depois deste dia nunca tive nenhuma restrição com relação a nenhum dos lugares que fui. Me tornei uma adolescente muito livre mas muito consciente dos perigos da vida jovem. O ligamento fraturado foi lição suficiente.

Até hoje mamãe acha que pisei no cadarço indo comprar refrigerante. Mamãe, se você estiver lendo, era tudo mentira. E isso me lembra outra história. Amanhã, cenas do próximo capítulo.

Cicatrizes e estabacos

•Março 10, 2008 • 4 Comentários

Uma vez me disseram que a mulher feminina é por natureza, invariavelmente, sete vezes mais resistente a dor que seu oposto, o homem macho. Assim como as estatísticas de shampoos e condicionadores, que enfatizam a porcentagem de “lisura” agregada ao cabelo sob o efeito contínuo daquele produto, não sei se é assim tão matemático.

Depois de uma conversa longa sobre cortes e torções, gessos e talas, lembrei de todos os episódios de dor e sofrimento físico. Boas histórias que havia esquecido frente as dores da vida adulta. Um ligamento torcido não é nada perto de um coração partido. A primeira história é genial e, até hoje, a única vez em que meus punhos traduziram minha fúria.

Tinha uns seis, sete anos. Este menino o Davi, nunca vou esquecer do nome nem do rosto. Tenho a foto da turma até hoje com o rosto de Davi riscado por uma tampa da caneta. Ele me lembrava realmente a história de Davi e Golias. História que me ensinaram em inglês na catequese que só suportei por uma manhã pois recortamos bonecos de papel. “Finger puppets of David and Goliath”. A noite vovó me explica a história em português, ajoelhada ao pé da cama, sob a luz do abajour, usando os bonecos como recurso audiovisual. Enfim, Davi, o pequeno malaco aos seis anos.

Bombado, a manga da camiseta do uniforme torando. Não sei se já era proposital naquela época ou coisa de mãe preguiçosa e criança crescendo rápido. Escrotinho, tosquinho, hoje em dia deve ser todo gatinho playboy, sarado e bronzeado aposto, Comedor, cheirador. Carro grande ou o completo oposto tambem não me surpreenderia.

Todo dia ao soar do sino do recreio ele acotovelava e joelhava todos nós já em formação de ataque, empilhados na porta da sala que a professora sádica mantinha trancada até a última nota da sirene. Abria a porteira e lá ia o Davi, de alguma maneira conseguia sair sempre na frente, ninguem apostava corrida de verdade só ele todo espertinho. Chegava sempre primeiro no parquinho e elegia um brinquedo como seu território exclusivo pois “Cheguei primeeeeirooo! Cheguei primeeeeiroooo!”. Só seus sidekicks bocós e as gatinhas podiam subir – tou dizendo, mala mesmo, de berço – a turma inteira se indignava. Os pequenos futuros engenheiros se juntavam num círculo e traçavam na areia planos nunca praticados de derrubá-lo daquele totalitarismo-tirânico-ditatorial auto-imposto. Filhozinho da puta.

Eu como menina meio moleque me metia nos planos e como mulher com mais colhão que muitos homens, pequenos ou grandes, realmente me indignava com a falta de atitude. Um dia senti o cheiro da oportunidade. Sentada na mesa de fórmica branca redonda, desenhando com meu giz de cera, enxerguei a vulnerabilidade no esquema de Davi, o escrotinho. Senti que não se preparou como sempre pra sair na frente. Estava dando como ganho o jogo, antes da bola rolar e o apito soar. A vaidade é um pecado, me ensinaram tambem na catequese britânica de Botafogo. He shall pay.

A campainha soou, eu corri antes de todos, inclusive ele Davizinho, pau-no-cuzinho. Cheguei ao parquinho. Parei e olhei em volta pra ver se não estava enganada. Era verdade. Eu fui a primeira. Não quis monopolizar nenhum brinquedo, apenas esfregar na cara de Davi, o putinho, seu lapso irreparável. Queria ver o oquinho.

Pulei e gritei pra que me visse celebrando ao cruzar a esquina antes da onda de crianças enlouquecidas e fiz questão de parar de comemorar assim que todos os outros surgiram. Ele congelou ao me ver. Ficou me encarando, aquela cara de criança com raiva, contorcendo a boca e fechando um pouco os olhos que você já viu em algum filme tipo “O Pestinha”. Aquela cara de raivinha de criança. Sensacional.

Ele paralisado, antes de sequer pisar na areia, foi inundado pelos colegas no êxtase da liberdade do intervalo. Alguns olharam pra trás desacreditando daquela cena. Mas eu não estava mais comemorando, só puderam supor por estarmos nos hostilizando silenciosamente, spaguetti western style, que eu o superei. Só ele testemunhou minha vitória. Meu alvo era ele apenas, o idiotinha.

Segui com minha rotina de recreio normal, brincando de Changeman na casa da árvore. Eis que num momento de tolice e talvez bravura, vou sozinha até a sala pegar alguma coisa na lancheira. Quem estava lá? Davi esperando seu Golias. Eu mal lhe notei a existência, minha tarefa havia sido cumprida naquele momento glorioso e cheio de sorte. Mas aparentemente Davizinho, o babaquinha, engoliu muito seco meu triunfo.

Eu viro as costas pra sair da sala, deliberadamente o ignorando, somos só nós dois e duas meninas, talvez até Karla com K que até hoje conheço e admiro e sua amiga inseparável na época e ainda por cima que parecia ser sua irmã, Karen, trocando papéis de carta no fundo da sala. Ele me puxa pelo braço, me joga contra a parede. Poderia ser meu primeiro momento de sexo selvagem se tivessemos dez anos a mais, mas não. Davi me dá um soco na boca do estômago.

Nunca vou me esquecer. Nunca. Eu não conseguia respirar, não entendia o que estava acontecendo. Eu não conseguia falar. Karla com K, pode não ter sido você Karlinha mas seria genial se fosse, vem ao meu auxílio. Elas não viram nada, não sabiam o que estava acontecendo. Eu tentava agarrar a camiseta apertada de Davizinho, o monstro que agora estava certa, ia me matar. Ele se assustou e desviava dos meus braços descontrolados pelo desespero e raiva, me olhava com uma cara de arrependimento e glória. A professora entra, eu me jogo a seus pés agonizante. Ela me pergunta: O que foi? Aos poucos vou conseguindo articular algumas palavras. Eu…não…consigo….respirar… Ela diz: Calma, tenta respirar fundo, vai voltar. Você caiu? Eu digo: Não, e aponto para Davi, o criminozinho. Ela diz: Davi, você empurrou ela? O meu pânico é tão grande que o interrogatório fica por isso mesmo e sem resposta. Eu começo a recuperar o fôlego, ela sai pra pegar um copo d’água.

Eu volto a respirar, a professora some de vista no momento exato que recupero o fio antes tênue da vida. Eu olho pra trás. Lá esta Davi, o merdinha, me olhando ainda meio chocado, meio feliz. Viadinho. Eu não penso nem meia vez, puxo pelos cabelos e empurro sua cabeça oca contra a grande mesa redonda de escola seguidora do método natural de ensino pré-escolar. Ele poê as mãos em frente ao rosto para se proteger. Um dedo é empurrado mais que os outros pela minha ira contra a mesa, sua unha se descola da pele. Toda ela. Sangue sobre a fórmica branca da mesa redonda.

Davizinho, o pobre menino sem unha, nunca me delatou. Eu nunca o delatei. Ficamos assim, mais fortes e mais sábios, mais calejados pela vida.

Davi, onde quer que você esteja, me desculpe. Você me aplicou a primeira dose de agressão gratuita, não possuia em mim ainda a ética dos mais velhos. Somos todos animais aos sete anos. Espero que a vida tenha lhe ensinado a ser mais humano, a mim eu sei que sim.